O Kremlin afirmou ver “um potencial bastante amplo” de cooperação com os Estados Unidos para explorar as grandes reservas de minerais estratégicos da Rússia nesta terça-feira , um dia depois de presidente da Rússia, Vladimir Putin, afirmar estar disposto a oferecer ao país acordos lucrativos, incluindo em regiões anexadas por Moscou que pertencem à Ucrânia. A menção de Putin vem em um momento em que o presidente dos EUA, Donald Trump, pressiona Kiev para que aceite ceder a exploração de seus recursos naturais a empresas americanas em contrapartida pelo apoio de Washington — que autoridades ucranianas disseram estar perto de ser fechado.
Durante uma entrevista coletiva nesta terça, o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, apontou que a Rússia tem muito potencial para a exploração de terras raras — minerais que desempenham um papel fundamental na defesa e em outras indústrias de alta tecnologia — que “os americanos precisam”, afirmando que, “quando chegar o momento de demonstrar vontade política para isso, estaremos abertos”.
Na segunda-feira, Putin deixou claro que esse potencial de exploração não se limitaria ao território russo:
— Enquanto aos novos territórios [as regiões ucranianas de Donetsk, Luhansk, Kherson e Zaporijia], é a mesma coisa. Nós estamos prontos para atrair parceiros internacionais para os ditos ‘novos’, os nossos territórios históricos, que retornaram à Federação Russa — disse Putin.
A manifestação de Putin, ao final de uma reunião do Gabinete russo sobre recursos naturais, ocorre em um momento de aproximação entre Washington e Moscou, o que aumenta a pressão sobre a Ucrânia. Trump, que chamou o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, de ditador na semana passada pela ausência de eleições enquanto o país está sob lei marcial pelo conflito de três anos, tenta arrancar um acordo em que Kiev se comprometa a garantir a empresas americanas o direito sobre 50% dos recursos minerais do país, incluindo as reservas de terras raras.
Zelensky rejeitou o acordo ao menos duas vezes nas últimas semanas, afirmando que corresponderia a “vender o país”. Contudo, em uma publicação na rede social X ainda na segunda-feira, a vice-primeira-ministra para a integração europeia e euro-atlântica da Ucrânia, Olga Stefanishyna, afirmou que os termos estariam “quase finalizados” após novas rodadas de negociação.
“As equipes ucraniana e norte-americana estão nos estágios finais das negociações sobre o acordo de minerais. As negociações foram muito construtivas, com quase todos os detalhes principais finalizados. Estamos comprometidos em concluir isso rapidamente para prosseguir com sua assinatura”, escreveu, sem detalhar os termos.
Em sua aparição pública na segunda, Putin minimizou o acordo que Washington busca com Kiev neste momento, afirmando que a Rússia detém reservas de metais e terras raras em uma ordem de grandeza superior à Ucrânia. Em uma fala que analistas disseram parecer apelar para os interesses econômicos de Trump, Putin citou também a exploração de alumínio na Sibéria, em uma colaboração que afirmou que poderia suprir a demanda americana pelo metal.
Retomando o assunto na terça-feira, Peskov fez a ressalva de que Moscou, porém, precisa de tempo para reconstruir suas relações com Washington e restaurar a confiança no país.
— Para dizer que confiamos nos americanos, ainda temos um longo caminho a percorrer — disse, acrescentando: — Muitos danos foram causados. Não podemos restaurar tudo da noite para o dia.
Alinhamento
A fala pública de Putin foi apenas mais um sinal do alinhamento entre os interesses do Kremlin e da Casa Branca. O líder russo elogiou publicamente Trump e projetos anunciados pelo governo americano, que promoveu uma mudança radical na política americana em relação à Ucrânia.
Sinal dessa mudança ficou evidente em votações na Assembleia Geral e no Conselho de Segurança da ONU na segunda-feira, com os dois países se alinhando em manifestações sobre a guerra na Ucrânia. Primeiro, os EUA se opuseram a uma resolução na AG elaborada pela Europa, que condenava as ações de Moscou e apoiava a integridade territorial da Ucrânia. Posteriormente, propôs uma resolução no Conselho de Segurança da ONU pedindo o fim do conflito, mas sem nenhuma crítica à Rússia.
Analistas apontam que a entrevista na segunda-feira mostra que Putin parece ter menos pressa do que Trump para acabar com a guerra na Ucrânia. A Rússia continua a ganhar terreno lentamente no campo de batalha, enquanto a Ucrânia luta com a escassez de pessoal e a incerteza sobre o futuro do apoio americano.
Segundo um estudo divulgado conjuntamento nesta terça pela Ucrânia, o Grupo do Banco Mundial, a Comissão Europeia e a ONU, a reconstrução da Ucrânia precisará de ao menos US$ 524 bilhões na próxima década, ou “aproximadamente 2,8 vezes o PIB nominal estimado do país para 2024”.
De acordo com o estudo, 13% das residências do país, ou mais de 2,5 milhões de lares, foram danificados ou destruídos desde a invasão russa, em 24 de fevereiro de 2022, até dezembro de 2024, sendo três quartos dos danos nas zonas fronteiriças do leste, norte e sul do país. (Com AFP e NYT)