A onça-pintada que atacou e devorou o caseiro Jorge Ávalos, de 60 anos, em Mato Grosso do Sul, não voltará ao habitat natural. O animal será mantido sob cuidados humanos e encaminhado a uma instituição autorizada para abrigá-lo, integrando o Programa de Manejo Populacional da Onça-Pintada, gerido pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).
Atualmente, o felino está em recuperação, apresentando sinais de desidratação e alterações nos sistemas hepático, renal e gastrointestinal. De acordo com o boletim veterinário divulgado nesta sexta-feira, exames complementares como raio-X, ultrassonografia e hemograma ainda estão sendo realizados para estabelecer um diagnóstico definitivo sobre seu estado de saúde.
O macho, com aproximadamente nove anos de idade e pesando 94 quilos, foi descrito como “extremamente magro” e em condição física “fragilizada”. Mesmo assim, após o procedimento de anestesia para avaliação clínica, ele retomou a consciência sem episódios de vômito ou regurgitação e vem se comportando de forma considerada estável.
Desde a chegada da onça ao CRAS (Centro de Reabilitação de Animais Silvestres), em Campo Grande, a estrutura foi isolada e o acesso ao local restrito a profissionais autorizados, seguindo protocolos de segurança estabelecidos pela Polícia Militar Ambiental.
Especialistas acreditam que o quadro de magreza severa possa ter motivado o comportamento agressivo do animal. O biólogo Tiago Leite explicou que felinos debilitados, seja por idade avançada ou por enfermidades, podem enfrentar dificuldades para capturar presas tradicionais, levando-os a buscar fontes de alimento alternativas, como animais domésticos e, em casos extremamente raros, seres humanos.
Tiago ressaltou ainda que incidentes predatórios desse tipo são incomuns. Em áreas onde o ambiente natural sofre impactos, é mais provável que predadores se voltem para presas não habituais. Segundo ele, episódios como esse costumam provocar medo e desinformação, gerando riscos adicionais para a fauna silvestre. “Eventos traumáticos como este ganham grande repercussão e podem incentivar ações de retaliação contra os animais”, alertou o especialista.
Os restos mortais de Jorge Ávalos foram localizados no dia 22 de abril, em uma área próxima a uma propriedade rural no município de Aquidauana. De acordo com relatos de pescadores locais e informações da Polícia Militar Ambiental, partes do corpo foram encontradas nas imediações de uma toca utilizada pela onça.
O ataque ocorreu próximo a um pesqueiro, onde Jorge trabalhava como caseiro. Imagens divulgadas nas redes sociais mostram vestígios de sangue no local do ataque, conhecido como pesqueiro Touro Morto, situado no Pantanal, às margens do Rio Miranda.
Após a confirmação da morte, equipes estaduais de fiscalização iniciaram uma força-tarefa para localizar o animal. A operação contou com a participação de policiais militares ambientais, dois guias experientes da região e o pesquisador Gediendson Ribeiro de Araújo, da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS), especialista em comportamento e manejo de grandes felinos.