EUA interrompem diálogo com Rússia e ampliam incertezas diplomáticas

A decisão coincide com a participação do presidente americano Donald Trump na cúpula do G7, no Canadá

A Rússia informou nesta segunda-feira (16) que os Estados Unidos decidiram suspender, sem apresentar justificativas, as negociações diretas voltadas à normalização das relações entre as duas maiores potências nucleares do mundo. A medida representa um novo revés no delicado cenário diplomático entre Moscou e Washington.

A porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da Rússia, Maria Zakharova, demonstrou surpresa diante da interrupção, afirmando que “esperamos que essa pausa não se prolongue por muito tempo”. A decisão coincide com a participação do presidente americano Donald Trump na cúpula do G7, no Canadá, onde há expectativa de pressão por parte de outros líderes quanto à postura dos EUA frente à guerra na Ucrânia.

Desde sua volta à Casa Branca, em janeiro, Trump reformulou a política externa em relação ao Kremlin. Entre os primeiros passos, reestabeleceu comunicação direta com Vladimir Putin — já foram cinco conversas telefônicas — e criou canais técnicos para diálogo diplomático.

Um dos gestos mais marcantes foi a redução do apoio incondicional a Kiev, tentando atrair os lados envolvidos para uma negociação. Apesar de duas rodadas de diálogo realizadas até agora, as tratativas têm avançado de forma lenta e envoltas em impasses.

Trump tem oscilado entre pressão e conciliação. Enquanto ameaça endurecer as sanções contra a Rússia, também busca proximidade com Putin, como na ligação do último sábado (14), quando os dois discutiram o recente ataque de Israel ao Irã, aliado estratégico de Moscou. Trump pediu que Putin atuasse como mediador para destravar as negociações nucleares entre Teerã e Washington, que seguem estagnadas e foram citadas por Israel como uma das razões para o ataque.

Apesar de os contatos entre os presidentes parecerem em bom andamento, a interrupção das negociações bilaterais causa estranheza. Zakharova esclareceu que não se trata de um encerramento definitivo, mas de uma suspensão da próxima rodada de conversas.

Desde fevereiro, três reuniões foram realizadas entre representantes russos e americanos: a primeira na Arábia Saudita (dia 18), e outras duas em Istambul (27 de fevereiro e 10 de abril). Ainda assim, os encontros têm sido marcados por dificuldades, dada a posição dos EUA como principal articulador das sanções ocidentais contra a economia russa desde o início da invasão à Ucrânia, em 2022.

O porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, já havia alertado que não seria realista esperar progressos rápidos. No entanto, sempre demonstrou otimismo com a retomada do diálogo, agora suspenso. Entre os assuntos em pauta estavam a retirada ou revisão das sanções, o descongelamento de ativos russos no exterior, a reabertura de canais diplomáticos com retorno de pessoal às embaixadas, e a normalização de voos e relações comerciais.

Analistas apontam que a suspensão pode ser uma tentativa dos EUA de exercer pressão indireta sobre a Ucrânia. Mesmo com o foco internacional voltado para o conflito entre Israel e Irã, a guerra na Europa Oriental continua. No fim de semana, o presidente ucraniano Volodimir Zelenski afirmou ter contido o avanço russo na região de Sumi (norte), ao passo que Moscou ganhou terreno em áreas do leste e do sul.

A tensão também aumentou após ataques com drones a bases russas que abrigam bombardeiros estratégicos. Apesar disso, nas últimas semanas houve uma redução na intensidade dos ataques aéreos.

Enquanto isso, as negociações de paz entre Moscou e Kiev seguem estagnadas. Ambas as partes apresentaram propostas consideradas inaceitáveis pelo lado oposto, dificultando qualquer avanço concreto.

Segundo observadores ouvidos pela Folha de S.Paulo, além do contexto da cúpula do G7, há a possibilidade de que Trump esteja tentando intensificar a pressão sobre Putin em meio à atual dinâmica global de “política de força”, exemplificada pela ofensiva israelense contra o Irã, que ocorreu sem participação direta dos EUA.

Fonte: Folha de S.Paulo