Máfia do Apito: ex-árbitro revela fragilidades que ainda permitem manipulação de jogos

O ex-árbitro reforça sua visão à luz de investigações recentes, como a operação Penalidade Máxima, conduzida pelo Ministério Público de Goiás

Edílson Pereira de Carvalho, árbitro central do escândalo que abalou o futebol brasileiro em 2005 e resultou na anulação de 11 partidas do Campeonato Brasileiro, afirmou que manipular jogos ainda é uma prática relativamente simples. Ele destacou que, além dos árbitros, os próprios jogadores também podem influenciar resultados de forma antidesportiva e criminosa.

O ex-árbitro reforça sua visão à luz de investigações recentes, como a operação Penalidade Máxima, conduzida pelo Ministério Público de Goiás, que apurou a atuação de um grupo de apostadores que aliciava jogadores, e a denúncia contra o atacante Bruno Henrique, do Flamengo, que foi suspenso do Brasileirão e tornou-se réu na Justiça por suspeita de fraude esportiva.

A série documental Máfia do Apito, produzida pelo SporTV em parceria com a produtora Feel The Match, estreia nesta sexta-feira (5) e estará disponível também no Globoplay. A produção de três episódios busca resgatar a história do escândalo e revisitar questionamentos levantados por Edílson, como a diferença entre os jogos anulados do Brasileiro e partidas de outros torneios, como o Campeonato Paulista e a Libertadores.

O diretor da série, Bruno Maia, explicou que, embora a cobertura jornalística da época tenha sido excelente, ela se concentrou no Campeonato Brasileiro, que estava em andamento, deixando de lado outros torneios que já haviam terminado.

Edílson e o árbitro Paulo José Danelon foram os principais investigados do caso e acabaram banidos do futebol. Ambos foram denunciados pelo Ministério Público por estelionato, formação de quadrilha e falsidade ideológica. O escândalo veio à tona em outubro de 2005 pela revista Veja, que revelou que os árbitros combinavam resultados de partidas com empresários apostadores liderados por Nagib Fayad, recebendo valores entre R$ 10 mil e R$ 15 mil por jogo, o equivalente a R$ 29 mil a R$ 44 mil corrigidos pela inflação.

A ação penal foi suspensa em 2007 por decisão do desembargador Fernando Miranda, do Tribunal de Justiça de São Paulo, e posteriormente trancada em 2009, por entenderem que os fatos não configuravam crime de estelionato. Segundo Maia, Edílson chegou a ficar cinco dias em prisão preventiva, pois o crime de fraude em jogos não estava tipificado no Código Penal.

O diretor da série também aponta que o escândalo poderia ter sido evitado caso as estruturas do futebol não tivessem falhado no início da trajetória de Edílson. O árbitro havia falsificado um diploma de ensino médio para ingressar no curso da Federação Paulista de Futebol e, em três anos, já alcançava a primeira divisão. Alguns árbitros entrevistados revelaram que sabiam de problemas financeiros de Edílson devido a dívidas de bingos, mas que o futebol ignorou essas fragilidades, o que Maia interpreta como um permissivo ao comportamento irregular.

Os 11 jogos apitados por Edílson no Brasileirão de 2005 foram anulados pelo STJD, presidido por Luiz Zveiter, com o objetivo de retirar completamente o árbitro do torneio e restaurar o prestígio da competição. O título daquele ano ficou com o Corinthians, que teve duas partidas remarcadas, conquistando quatro pontos na repetição de jogos, decisivos para superar o Internacional por três pontos.